Conto, Um Sonho e Outro Sonho, 1892

Um sonho e outro sonho

Texto Fonte:

Relquias de Casa Velha, Machado de Assis,

Rio de Janeiro: Edies W. M.
Jackson, 1938.

.

Publicado originalmente em A Estao, 31 de maio de 1892.

Crs em sonhos? H pessoas que os
aceitam como a palavra do destino e da verdade. Outros h que os desprezam. Uma
terceira classe explica-os, atribuindo-os a causas naturais. Entre tantas
opinies no quero saber da tua, leitora, que me ls, principalmente se s
viva, porque a pessoa a quem aconteceu o que vou dizer era viva, e o assunto
pode interessar mais particularmente s que perderam os maridos. No te peo
opinio, mas ateno.

Genoveva, vinte e quatro anos,
bonita e rica, tal era a minha viva. Trs anos de viuvez, um de vu longo,
dois de simples vestidos pretos, chapus pretos, e olhos pretos, que vinham do
consrcio e do bero. A diferena  que agora olhavam para o cho, e, se
olhavam para alguma coisa ou algum, eram sempre tristes, como os que j no
tm consolao na terra nem provavelmente no cu. Morava em uma casa escondida,
para os lados do Engenho Velho, com a me e os criados. Nenhum filho. Um que
lhe devia nascer, foi absorvido pelo nada; tinha cinco meses de gestao.

O retrato do marido, bacharel
Marcondes, ou Nhonh, pelo nome familiar, vivia no quarto dela, pendente da
parede, moldura de ouro, coberta de crepe. Todas as noites, Genoveva, depois de
rezar a Nossa Senhora, no se deitava sem lanar o ltimo olhar ao retrato, que
parecia olhar para ela. De manh o primeiro olhar era para ele. Quando o tempo
veio amortecendo o efeito da dor, esses gestos diminuram naturalmente e
acabaram; mas a imagem vivia no corao. As mostras externas no diminuam a
saudade.

Rica? No, no era rica, mas tinha
alguma coisa; tinha o bastante para viver com a me,  larga. Era,
conseguintemente, um bom negcio para qualquer moo ativo, ainda que no
tivesse nada de seu; melhor ainda para quem possusse alguma coisa, porque as
duas bolsas fariam uma grande bolsa, e a beleza da viva seria a mais valiosa
moeda do peclio. No lhe faltavam pretendentes de toda a espcie, mas todos
perdiam o tempo e o trabalho. Carlos, Roberto, Lucas, Casimiro e outros muitos
nomes inscreviam-se no livro dos passageiros, e iam-se embora sem esperanas.
Alguns nem levavam saudades. Muitos as levavam em grande cpia e das mais
tristes. Genoveva no se deixou prender de ningum.

Um daqueles candidatos, Lucas,
pde saber da me de Genoveva algumas circunstncias da vida e da morte do
finado genro. Lucas tinha ido pedir licena  boa senhora para solicitar a mo
da filha. No havia necessidade, pois que a viva dispunha de si; mas a
incerteza de ser aceito sugeriu-lhe esse alvitre, a fim de ver se ganhava a boa
vontade e intercesso da me.

 No lhe dou tal conselho,
respondeu esta.

 De pedi-la em casamento?

 Sim; ela deu-lhe alguma
esperana?

Lucas hesitou.

 Vejo que no lhe deu nenhuma.

 Devo ser verdadeiro. Esperanas,
no tenho; no sei se D. Genoveva me perdoa, ao menos, a afeio que me
inspirou.

 Pois no lhe pea nada.

 Parece-lhe que...

 Que perder o tempo. Genoveva
no casar nunca mais. At hoje tem a imagem do marido diante de si, vive da
lembrana dele, chora por ele, e nunca se unir a outro.

 Amaram-se muito?

 Muito. Imagine uma unio que
apenas durou trs anos. Nhonh, quando morreu, quase que a levou consigo.
Viveram como dois noivos; o casamento foi at romanesco. Tinham lido no sei
que romance, e aconteceu que a mesma linha da mesma pgina os impressionou
igualmente; ele soube disso lendo uma carta que ela escrevera a uma amiga. A
amiga atestou a verdade, porque ouvira a confisso de Nhonh, antes de lhe
mostrar a carta. No sei que palavras foram, nem que romance era. Nunca me dei
a essas leituras. Mas naturalmente eram palavras ternas. Fosse o que fosse,
apaixonaram-se um pelo outro, como raras vezes vi, e casaram-se para ser
felizes por longos anos. Nhonh morreu de uma febre perniciosa. No pode
imaginar como Genoveva sofreu. Quis ir com o cadver, agarrou-se ao caixo,
perdeu os sentidos, e esteve fora de si quase uma semana. O tempo e os meus
cuidados, alm do mdico,  que puderam vencer a crise. No chegou a ir 
missa; mandamos dizer uma, trs meses depois.

A me exagerava no ponto de dizer
que foi a frase do romance que ligou a filha ao marido; eles tinham
naturalmente inclinao. A frase no fez mais que falar por eles. Nem por isso
tira o romanesco de Genoveva e do finado Marcondes, que fizera versos aos
dezoito anos, e, aos vinte, um romance, A bela do Sepulcro, cuja herona
era uma moa que, havendo perdido o esposo, ia passar os dias no cemitrio, ao
p da sepultura dele. Um moo, que ia passar as tardes no mesmo cemitrio, ao
p da sepultura da noiva, viu-a e admirou aquela constncia pstuma, to irm
da sua; ela o viu tambm, e a identidade da situao os fez amados um do outro.
A viva, porm, quando ele a pediu em casamento, negou-se e morreu oito dias
depois.

Genoveva tinha presente este
romance do marido. Havia-o lido mais de vinte vezes, e nada achava to pattico
nem mais natural. Mandou fazer uma edio especial, e distribuiu exemplares a
todos os amigos e conhecidos da famlia. A piedade conjugal desculpava esse
obsquio pesado, ainda que gratuito. A bela do sepulcro era ilegvel.
Mas no se conclua da que o autor, como homem espirituoso, era inferior s
saudades da viva. Inteligente e culto, cometera aquele pecado literrio, que,
nem por ser grande, o teria levado ao purgatrio.

Trs anos depois de viva,
apareceu-lhe um pretendente. Era bacharel, como o marido, tinha trinta anos, e
advogava com tanta felicidade e real talento que contava j um bom peclio.
Chamava-se Oliveira. Um dia, a me de Genoveva foi demandada por um parente que
pretendia haver duas casas dela, por transaes feitas com o marido. Querendo
saber de um bom advogado, inculcaram-lhe Oliveira, que em pouco tempo venceu a
demanda. Durante o correr desta, Oliveira foi duas vezes  casa de Genoveva, e
s a viu da segunda; mas foi quanto bastou para ach-la interessantssima, com
os seus vestidos pretos, tez muito clara e olhos muito grandes. Vencida a
demanda, a constituinte meteu-se em um carro e foi ao escritrio de Oliveira,
para duas coisas, agradecer-lhe e remuner-lo.

 Duas pagas? retorquiu ele rindo.
Eu s recebo uma  agradecimentos ou honorrios. J tenho os agradecimentos.

 Mas...

 Perdoe-me isto, mas a sua causa
era to simples, correu to depressa, deu-me to pouco trabalho, que seria
injustia pedir-lhe mais do que a sua estima. D-me a sua estima?

 Seguramente, respondeu ela.

Quis ainda falar, mas no achava
palavras, e saiu convencida de que era chegado o reino de Deus. Entretanto,
querendo fazer uma fineza ao generoso advogado, resolveu dar-lhe um jantar,
para o qual convidou algumas famlias ntimas. Oliveira recebeu o convite com
alacridade. No gostava de perfumes nem adornos; mas nesse dia borrifou o leno
com Jockey Club e ps ao peito uma rosa amarela.

Genoveva recebeu o advogado como
recebia outros homens; a diferena, porm, entre ele e os outros  que estes
apresentavam logo no primeiro dia as credenciais, e Oliveira no pedia sequer
audincia. Entrou como um estrangeiro de passagem, curioso, afvel,
interessante, tratando as coisas e pessoas como os passageiros em trnsito
pelas cidades de escala. Genoveva teve excelente impresso do homem; a me
estava encantadssima.

 Enganei-me, pensou Genoveva,
recolhendo-se ao quarto. Cuidei que era outro pedido, entretanto... Mas, por
que motivo fez o que fez, e aceitou o jantar de mame?

Chegou a suspeitar que a me e o
advogado estavam de acordo, que ela no fizera mais que buscar ocasio de os
apresentar um ao outro, e travar relaes. A suspeita cresceu quando, dias
depois, a me falou em visitar a me de Oliveira, com quem este vivia; mas a
prontido com que aceitou as suas razes de negativa tornou a moa perplexa.
Genoveva examinou o caso e reconheceu que atribua  me um papel menos
prprio; varreu-se-lhe a suposio. Demais (e isto valia por muito), as
maneiras do homem estavam em desacordo com quaisquer projetos.

Travadas as relaes, bem depressa
as duas famlias se visitavam, e a mido. Oliveira residia longe; mas achou
casa perto e mudou-se. As duas mes achavam-se reciprocamente encantadoras, e
tanto a de Genoveva gostava de Oliveira, como a de Oliveira gostava de
Genoveva. Tudo isto vai parecendo simtrico; mas eu no tenho modo de contar
diferentemente coisas que se passaram assim, ainda que reconhea a convenincia
de as compor algo. Quanto menos, falta-me tempo... A verdade  que as duas
matronas se amavam e trabalhavam para fazer os filhos encontradios.

Um, dois, trs meses correram, sem
que Oliveira revelasse a menor inclinao  viuvinha. Entretanto, as horas
passadas com ele, em qualquer das casas, no podiam ser mais deleitosas.
Ningum sabia encher o tempo to bem, falando a cada uma das pessoas a sua
prpria linguagem. Durante esse prazo teve Genoveva ainda um pretendente, que
no recebeu melhor agasalho; parece at que tratou a este com uma sombra de
despeito e irritao inexplicveis, no s para ele, como para ela prpria.

 Realmente, o pobre diabo no tem
culpa que eu seja viva, disse ela consigo.

Que eu seja bonita,  o que ela
devia dizer, e pode ser que tal idia chegasse a bater as asas, para
atravessar-lhe o crebro; mas, h certa modstia inconsciente, que faz evitar
confisses, no digo presumidas, mas orgulhosas. Seja o que for, Genoveva
chegou a ter pena do pretendente.

 Por que no se portou ele como o
Oliveira, que me respeita? continuou consigo.

Entrara o quarto ms das relaes,
e o respeito do advogado no diminuiu. Jantaram juntos algumas vezes, e
chegaram a ir juntos ao teatro. Oliveira abriu at um capitulo de confidncias
com ela, no amorosas,  claro, mas de sensaes, de impresses, de cogitaes.
Um dia, disse-lhe que, em pequeno, tivera desejo de ser frade; mas levado ao
teatro, e assistindo  comdia do Pena, O Novio, o espetculo do
menino, vestido de frade, e correndo pela sala, a bradar: eu quero ser frade!
eu quero ser frade! fez-lhe perder todo o gosto da profisso.

 Achei que no podia vestir um
hbito assim profanado.

 Profanado, como? O hbito no
tinha culpa.

 No tinha culpa,  verdade; mas
eu era criana, no podia vencer essa impresso infantil. E parece que foi bom.

 Quer dizer que no seria bom
frade?

 Podia ser que fosse sofrvel;
mas eu quisera s-lo excelente.

 Quem sabe?

 No; dei-me to bem com a vida
do foro, com esta chicana da advocacia, que no  provvel tivesse a vocao
contemplativa to perfeita como quisera. H s um caso em que eu acabaria num
convento.

 Qual?

Oliveira hesitou um instante.

 Se enviuvasse, respondeu.

Genoveva, que sorria, aguardando a
resposta, fez-se rapidamente sria, e no retorquiu. Oliveira no acrescentou
nada, e a conversa naquele dia acabou menos expressiva que das outras vezes.
Posto que tivesse o sono pronto, Genoveva no dormiu logo que se deitou; ao
contrrio, ouviu dar meia-noite, e esteve ainda muito tempo acordada.

Na manh seguinte, a primeira
coisa em que pensou foi justamente na conversao da vspera, isto , naquela
ltima palavra de Oliveira. Que havia nela? Aparentemente, pouco; e pode ser
que, na realidade, ainda menos. Era um sentimento de homem que no admitia o
mundo, depois de roto o consrcio; e iria refugiar-se na solido e na religio.
Confessemos que no basta para explicar a preocupao da nossa viva. A viva,
entretanto, no viveu de outra coisa, durante esse dia, salvo o almoo e o
jantar, que ainda assim foram quase silenciosos.

 Estou com dor de cabea,
respondeu  me, para explicar as suas poucas palavras.

 Toma antipirina.

 No, isto passa.

E no passava. Se enviuvasse, ele
ia meter-se em um convento, pensava Genoveva; logo, era uma censura a ela, por
no ter feito o mesmo. Mas que razo havia para desej-la recolhida a um
mosteiro? Pergunta torta; parece que a pergunta direita seria outra: Que razo
haveria para no desej-la recolhida a um mosteiro? Mas se no era direita,
era natural, e o natural  muitas vezes torto. Pode ser at que, bem exprimidas
as primeiras palavras, deixem o sentido das segundas; mas, eu no fao aqui
psicologia, narro apenas.

Atrs daquele pensamento, veio
outro mui diverso. Talvez que ele tivesse tido alguma paixo, to forte, que,
se casasse e enviuvasse... E por que no a teria ainda agora? Pode ser que
amasse a algum, que pretendesse casar, e que, se acaso perdesse a mulher
amada, fugisse ao mundo para sempre. Confessara-lhe isto, como usava fazer a
outros respeitos, como lhe confessava opinies, que dizia no repetir a ningum
mais. Essa explicao, posto que natural, atordoou Genoveva ainda mais que a
primeira.

 Afinal, que tenho eu com isto?
Faz muito bem.

Passou mal a noite. No dia
seguinte foi com a me fazer compras  Rua do Ouvidor, demorando-se muito, sem
saber porqu, e olhando para todos os lados, sempre que saa de uma loja.
Passando por um grupo estremeceu e olhou para as pessoas que falavam, mas no
conheceu nenhuma. Tinha ouvido, entretanto, a voz de Oliveira. H vozes
parecidas com outras, que enganam muito, ainda quando a gente vai distrada. H
tambm ouvidos mal educados.

A declarao de Oliveira de que
entraria para um convento, se chegasse a enviuvar, no saa da cabea de
Genoveva. Passaram-se alguns dias sem ver o advogado. Uma noite, depois de
cuidar no caso, Genoveva olhou para o retrato do marido antes de deitar-se;
repetiu a ao no dia seguinte, e o costume dos primeiros tempos da viuvez
tornou a ser o de todas as noites. De uma vez, mal adormecera, teve um sonho
extraordinrio.

Apareceu-lhe o marido, vestido de
preto, como se enterrara, e ps-lhe a mo na cabea. Estavam em um lugar que
no era bem sala nem bem rua, uma coisa intermdia, vaga, sem contornos
definidos. O principal do sonho era o finado, cara plida, mos plidas, olhos
vivos,  certo, mas de uma tristeza de morte.

 Genoveva! disse-lhe ele.

 Nhonh! murmurou ela.

 Para que me perturbas a vida da
morte, o sono da eternidade?

 Como assim?

 Genoveva, tu esqueceste-me.

 Eu?

 Tu amas a outro.

Genoveva negou com a mo.

 Nem ousas falar, observou o
defunto.

 No, no amo, acudiu ela.

Nhonh afastou-se um pouco, olhou
para a antiga esposa, abanou a cabea incredulamente, e cruzou os braos.
Genoveva no podia fit-lo.

 Levanta os olhos, Genoveva.

Genoveva obedeceu.

 Ainda me amas?

 Oh! ainda! exclamou Genoveva.

 Apesar de morto, esquecido dos
homens, hspede dos vermes?

 Apesar de tudo!

 Bem, Genoveva; no te quero
forar a nada, mas se  verdade que ainda me amas, no conspurques o teu amor
com as carcias de outro homem.

 Sim.

 Juras?

 Juro.

O finado estendeu-lhe as mos, e
pegou nas dela; depois, enlaando-a pela cintura, comeou uma valsa rpida e
lgubre, giro de loucos, em que Genoveva no podia fitar nada. O espao j no
era sala, nem rua, nem sequer praa; era um campo que se alargava a cada giro
dos dois, por modo que, quando estes pararam, Genoveva achou-se em uma vasta
plancie, semelhante a um mar sem praias; circulou os olhos, a terra pegava com
o cu por todos os lados. Quis gritar; mas sentiu na boca a mo fria do marido
que lhe dizia:

 Juras ainda?

 Juro, respondeu Genoveva.

Nhonh tornou a pegar-lhe da
cintura, a valsa recomeou, com a mesma vertigem de giros, mas com o fenmeno
contrrio, em relao ao espao. O horizonte estreitou-se a mais e mais, at
que eles se acharam numa simples sala, com este apndice: uma ea e um caixo aberto. O defunto parou,
trepou ao caixo, meteu-se nele, e fechou-o; antes de fechado, Genoveva viu a
mo do defunto, que lhe dizia adeus. Soltou um grito e acordou.

Parece que, antes do grito final,
soltara outros de angstia, porque quando acordou, viu j ao p da cama uma
preta da casa.

 Que foi, Nhanh?

 Um pesadelo. Eu disse alguma
coisa? falei? gritei?

 Nhanh gritou duas vezes, e
agora outra vez,

 Mas foram palavras?

 No, senhora; gritou s.

Genoveva no pde dormir o resto
da noite. Sobre a manh chegou a conciliar o sono, mas este foi interrompido e
curto.

No referiu  me os pormenores do
sonho; disse s que tivera um pesadelo. De si para si, aceitou aquela viso do
marido e as suas palavras, como determinativas do seu proceder. Ao demais,
jurara, e este vnculo era indestrutvel. Examinando a conscincia, reconheceu
que estava prestes a amar a Oliveira, e que a notcia desta afeio, ainda mal
expressa, tinha chegado ao mundo onde vivia o marido. Ela cria em sonhos; tinha
para si que eles eram avisos, consolaes e castigos. Havia-os sem valor,
sonhos de brincadeira; e ainda esses podiam ter alguma significao. Estava
dito; acabaria com aquele princpio de qualquer coisa que Oliveira conseguira
inspirar-lhe e tendia a crescer.

Na seguinte noite, Genoveva
despediu-se do retrato do marido, rezou por ele, e meteu-se na cama com receio.
Custou-lhe dormir, mas afinal o sono fechou-lhe os lindos olhos e a alma
acordou sem ter sonhado nada, nem mal nem bem; acordou com a luz do sol que lhe
entrava pelas portas das janelas.

Oliveira deixara de ir ali uma
semana. Genoveva espantou-se da ausncia; a me quis ir  casa dele saber se
era alguma doena, mas a filha tirou-lhe a idia da cabea. No princpio da
outra semana, apareceu ele com a me, tinha tido um resfriamento que o reteve
na cama trs dias.

 Eu no disse? acudiu a me de
Genoveva. Eu disse que havia de ser negcio de doena, porque o doutor no
deixa de vir tanto tempo...

 E a senhora no acreditou?
perguntou Oliveira  linda viva.

 Confesso que no.

 Pensa, como minha me, que sou
invulnervel.

Sucederam-se as visitas entre as
duas casas, mas nenhum incidente veio perturbar a resoluo em que estava
Genoveva de cortar inteiramente quaisquer esperanas que pudesse haver dado ao
advogado. Oliveira era ainda o mesmo homem respeitoso. Passaram-se algumas
semanas. Um dia, Genoveva ouviu dizer que Oliveira ia casar.

 No  possvel, disse ela 
amiga que lhe deu a notcia.

 No  possvel, por qu? acudiu
a outra. Vai casar com a filha de um comerciante ingls, um Stanley. Todos
sabem disto.

 Enfim, como eu pouco saio...

Justifiquemos a viva. No lhe
parecia possvel, porque ele visitava-as com tal freqncia, que no se podia
crer em casamento tratado. Quando visitaria a noiva? Apesar da razo, Genoveva
sentia que podia ser assim mesmo. Talvez o futuro sogro fosse algum esquisito,
que no admitisse a visita de todas as noites. Notou que, a par disto, Oliveira
era desigual com ela; tinha dias e dias de indiferena, depois l vinha um
olhar, uma palavra, um dito, um aperto de mo... Os apertos de mo eram o sinal
mais freqente: tanto que ela sentia alguma falta no dia em que ele era frouxo,
e esperava o dia seguinte para ver se era mais forte. Lanava estas
curiosidades  conta da vaidade. Vaidade de mulher bonita, dizia a si mesma.

Daquela vez, porm, esperou-o com
certa nsia, e fez-lhe bem o aperto de mo com que ele a saudou na sala.
Arrependera-se de no ter contado  me a notcia do casamento, para que esta
perguntasse ao advogado; e, no se podendo ter, falou ela mesma.

 Eu, minha senhora?

Genoveva continuou sorrindo.

 Sim, senhor.

 H de ser outro Oliveira, tambm
advogado, que est realmente para casar este ms. Eu no me casarei nunca.

Naquela noite, Genoveva, ao
deitar-se olhou ternamente para o retrato do finado marido, rezou-lhe dobrado,
e tarde dormiu, com medo de outra valsa; mas acordou sem sonhos.

Que poder haver entre uma viva
que promete ao finado esposo, em sonhos, no contrair segundas npcias, e um
advogado que declara, em conversao, que jamais se casar? Parece que nada ou
muito; mas  que o leitor no sabe ainda que este Oliveira tem por plano no
saltar o barranco sem que ela lhe estenda as duas mos, posto que a adore, como
dizem todos os enamorados. A ltima declarao teve por fim dar um grande
golpe, por modo que a desafiasse a desmentir-se. E pareceu-lhe, ao sair, que
algum efeito produzira, visto que a mo de Genoveva tremia um pouco, muito
pouco, e que a ponta dos dedos... No, aqui foi iluso; os dedos dela no lhe
fizeram nada.

Notem bem que eu no tenho culpa
destas histrias enfadonhas de dedos e contradedos, e palavras sem sentido,
outras meio inclinadas, outras claras, obscuras; menos ainda dos planos de um e
das promessas de outro. Eu, se pudesse, logo no segundo dia tinha pegado em
ambos, ligava-lhes as mos, e dizia-lhes: casem-se. E passava a contar outras
histrias menos montonas. Mas, as pessoas so estas;  preciso aceit-las
assim mesmo.

Passaram-se dias, uma, duas, trs
semanas, sem incidente maior. Oliveira parecia deixar a estratgia de Fabio
Cunctator. Um dia declarou francamente  viva que a amava; era um sbado, em
casa dela, antes de jantar, enquanto as duas mes os tinham deixado ss.
Genoveva abria as folhas de um romance francs que Oliveira lhe trouxera. Ele
fitava pela centsima vez uma aquarela, pendurada no trecho da parede que
ficava entre duas janelas. Bem ouvia a faca de marfim rasgando as folhas
espessas do livro, e o silncio deixado pelas duas senhoras que tinham deixado
a sala; mas no voltava a cabea nem baixava os olhos. Baixou-os de repente, e
voltou-os para a viva. Ela sentia-os, e, para dizer alguma coisa:

 Sabe se  bonito o romance?
perguntou, parando de rasgar as folhas.

 Dizem-me que sim.

Oliveira foi sentar-se em um pouf,
que estava ao p do sof, e fitou as mos de Genoveva, pousadas sobre o livro
aberto, mas as mos continuaram o seu ofcio para escapar  admirao do homem,
como, se cortando as folhas, fossem menos admirveis que paradas. Alongou-se o
silncio, um silncio constrangido  que Genoveva quisera romper, sem achar
modo nem ocasio. Pela sua parte, Oliveira tinha mpetos de lhe dizer
subitamente o resto do que ela devia saber pelos ltimos dias; mas no cedia
aos mpetos, e acabou trivialmente elogiando-lhe as mos. No valia a pena
tanto trabalho para acabar assim. Ele, porm, vexado da situao, ps toda a
alma na boca e perguntou  viva se desejava ser sua esposa.

Desta vez, as mos pararam sem
plano. Genoveva, confusa, pregou os olhos no livro, e o silncio entre os dois
fez-se mais longo e profundo. Oliveira olhava para ela; via-lhe as plpebras
cadas e a respirao curta. Que palavra estaria dentro dela? Hesitava pelo
vexame de dizer que sim? ou pelo aborrecimento de dizer que no? Oliveira tinha
razes para crer na primeira hiptese. Os ltimos dias foram de acordo tcito,
de consentimento prvio. Entretanto, a palavra no saa; e a memria do sonho
veio complicar a situao. Genoveva recordou-se da penosa e triste valsa, da
promessa e do fretro, e empalideceu. Nisto foram interrompidos pelas duas senhoras,
que voltaram  sala.

O jantar foi menos animado que de
costume. De noite, vieram algumas pessoas, e a situao piorou. Separaram-se
sem resposta. A manh seguinte foi cheia de tdio para Genoveva, um tdio
temperado com alegria que bem fazia adivinhar o estado da alma da moa.
Oliveira no apareceu nesse dia; mas, veio no outro,  noite. A resposta que
ela deu no podia ser mais decisiva, ainda que trmula e murmurada.

H aqui um repertrio de pequenas
coisas infinitas, que no pode entrar em um simples conto nem ainda em longo
romance; no teria graa escrito. Sabe-se o que sucede desde a aceitao de um
noivo at o casamento. O que se no sabe, porm,  o que aconteceu com esta
nossa amiga, dias antes de casar.  o que se vai ler para acabar.

Desde duas semanas antes da
pergunta de Oliveira, a viva deitava-se sem olhar para o retrato do finado
marido. Logo depois da resposta, olhava-o algumas vezes, de soslaio, at que
tornou ao anterior costume. Ora, uma noite, quatro dias antes de casar, como
houvesse pensado no sonho da valsa e na promessa no cumprida, deitou-se com
medo e s dormiu sobre a madrugada. Nada lhe sucedeu; mas, na segunda noite,
teve um sonho extraordinrio.

No era a valsa do outro sonho,
posto que, ao longe, na penumbra, via uns contornos cinzentos de vultos que
andavam  roda. Viu, porm, o marido, a princpio severo, depois triste,
perguntando-lhe como  que esquecera a promessa. Genoveva no respondeu nada;
tinha a boca tapada por um carrasco, que era no menos que Oliveira.

 Responde, Genoveva!

 Ah! Ah!

 Tu esqueceste tudo. Ests
condenada ao inferno!

Uma lngua de fogo lambeu a parte
do cu, que se conservava azul, porque todo o resto era um amontoado de nuvens
carregadas de tempestade. Do meio delas saiu um vento furioso, que pegou da
moa, do defunto marido e do noivo e os levou por uma estrada fora, estreita,
lamacenta, cheia de cobras.

 O inferno! sim! o inferno!

E o carrasco tapava-lhe a boca, e
ela mal podia gemer uns gritos abafados.

 Ah! ah!

Parou o vento, as cobras
ergueram-se do cho e dispersaram-se no ar, entrando cada uma pelo cu dentro;
algumas ficaram com a cauda de fora. Genoveva sentiu-se livre; desaparecera o
carrasco, e o defunto esposo, de p, ps-lhe a mo na cabea, e disse com voz
proftica:

 Morrers se casares!

Desapareceu tudo; Genoveva
acordou; era dia. Ergueu-se trmula; o susto foi passando, e mais tarde, ao
cuidar do caso, dizia consigo: So sonhos. Casou e no morreu.
