Conto, O que so as moas, 1866

O que so as moas

Texto-fonte:

http://www2.uol.com.br/machadodeassis/

Publicado originalmente em Jornal
das Famlias, 1866.

I

Diz-se muita coisa feroz a
respeito da amizade das mulheres. Ora, este conto tem por objeto a amizade de
duas mulheres, to firme, to profunda, to verdadeira, que as famlias respectivas,
para melhor caracteriz-la, davam s duas a designao de Orestes e Plades...
de balo. J se usava balo no tempo deste conto; isto , as mulheres que
haviam sido belas desde Eva at dez anos atrs sem o auxlio da crinolina,
imaginaram que sem a crinolina j no podiam agradar.

Se outras razes no houvesse para
suprimir a crinolina bastava a simples comparao entre... Mas no, leitoras,
deste modo interrompo o romance e deito j em vosso esprito um germe de
averso pelo singelo escritor.

Tenho, pois, aqui a histria de
duas mulheres amigas e unidas como carne e unha. Razes de simpatia e de
convivncia longa trouxeram esta amizade, que fazia a felicidade das famlias e
a admirao de toda a gente. Uma chamava-se Jlia e a outra Teresa. Esta tinha
cabelos louros e era clara; aquela tinha-os castanhos e era morena. Eram estas
as diferenas; no mais, igualmente belas e igualmente vestidas. Vestidas, sim,
porque quando no estavam juntas, a primeira que acordava mandava perguntar 
outra que vestido pretendia trajar naquele dia, e era assim que ambas sempre
andavam vestidas do mesmo modo.

Imagine-se depois o resto. Nenhuma
delas ia ao teatro, ao baile, ao passeio, sem a outra.  mesa de algum jantar,
fosse ou no de cerimnia, o que esta comia, comia aquela, s vezes sem
consulta, por simples inspirao.

Esta conformidade, to ostensiva
como era, no alterava o fundo da amizade, como acontece geralmente. Eram
verdadeiramente amigas. Quando uma adoecia, a outra no adoecia, como devia
ser, mas isto pela simples razo de que a doente no recebia um caldo que no
fosse das mos da outra. Talvez que esta simples circunstncia influsse na
cura.

Ambas contavam a mesma idade, com
diferena de dias. Tinham vinte anos.

J estou a ouvir uma pergunta da
parte das leitoras, pergunta que naturalmente dar mais interesse ao meu conto,
pela simples razo de que no responderei a ela.

A pergunta  esta. Aquelas duas
almas, to irms, to conformes, namoravam acaso o mesmo indivduo? A pergunta
 natural e lgica, adivinho mesmo os terrores a que pode dar lugar o
desenvolvimento dela; mas nada disso me demove do propsito de deix-la sem
resposta.

O mais que posso dizer  que at o
momento em que a nossa histria comea o corao de ambas no havia ainda palpitado
por amor, coisa rara nos vinte anos, idade em que a maioria das mulheres j
conserva vinte maos de cartas, correspondentes a outros tantos namorados
inconstantes ou infelizes. Quero ao menos dotar as minhas heronas destas duas
singularidades.

Teresa  filha de um proprietrio;
Jlia  filha de um empregado pblico de ordem superior. Tinham as mes vivas e
eram filhas nicas: no importa saber mais nada.

Teresa morava em Catumbi. Jlia nos Cajueiros. Calculem daqui a maada que levava o moleque encarregado de ir
dos Cajueiros ao Catumbi ou vice-versa para saber de que maneira se vestiam as
duas amigas, que, como disse, at nisto queriam manter a mais perfeita
conformidade!

Estamos no ms de junho. Faz algum
frio. Jlia, retirada para o seu gabinete de trabalho, ocupa-se em terminar um
bordado que destina mandar a Teresa. Tem a porta e janela fechadas por causa do
frio. Trabalha com atividade para acabar o bordado naquele mesmo dia. Mas
algum vem interromp-la:  uma mulatinha de dez anos, cria de casa, que acaba
de receber uma carta mandada por Teresa.

Jlia abre a carta e l o
seguinte:

Minha querida Jlia.
 talvez esta noite l v. Tenho coisas muito importantes a contar-te. Que
romance, minha amiga!  para duas horas, seno mais. Prepara-te. At logo! 
Tua do corao, Teresa.

Jlia leu a carta, releu-a, e
murmurou:

 Que singularidade!

Depois, escreveu as seguintes
linhas em resposta a Teresa:

Vem, minha querida.
Se no viesses ia eu! H muito que no te vejo e quero ouvir-te e falar-te. Com
que ouvidos te hei de ouvir, e com que palavras te hei de falar. Nem cinco
horas. O melhor  vires dormir c.  Tua Jlia.

O leitor compreende facilmente que
as coisas muito importantes de que falava Teresa no seriam decerto nem a ala
de fundos, nem a mudana de ministrio, nem mesmo a criao de bancos. Aos
vinte anos s h um banco: o corao; s h um ministrio: o amor. As firmezas
e as infidelidades so a ala e a baixa de fundos.

Daqui concebe o leitor, que 
perspicaz, o seguinte:  o negcio importante de Teresa  algum amor.

E dizendo isto o leitor prepara-se
para ver despontar no horizonte daquele corao virgem a primeira alva de um
sentimento puro e ardente. No serei eu que lhe impea o prazer, mas s lho
consentirei nos posteriores captulos; neste no. Dir-lhe-ei somente, para
melhor orient-lo, que a visita prometida por Teresa no teve lugar por causa
de visitas inesperadas que foram  casa dela. A moa arrepelou-se, mas no era
possvel vencer aquele obstculo. Vingou-se porm; no deu palavra durante a
noite e deitou-se mais cedo que de costume.

II

Dois dias depois Teresa recebia de
Jlia a seguinte carta:

Minha querida Teresa.  Quiseste
contar-me no sei que acontecimento; dizes-me que preparas uma carta para isso.
Enquanto espero a tua carta, escrevo-te eu uma para dar-te parte de um
acontecimento meu.

At nisto parecemos irms.

Ah! se morssemos juntas seria a
suprema felicidade; ns que juntas vivemos to iguais.

Sabes que at hoje estou como a
livre borboleta dos campos; ningum tem feito bater o meu corao. Pois bem,
chegou a minha vez.

A vais rir, minha cruelzinha,
destas confidncias; tu que no amas, vais zombar de mim que me alistei nas
bandeiras do amor.

Amo, sim, e no poderia deixar de
faz-lo, to bela, to interessante  a pessoa em questo.

Quem ? perguntars tu. Ser o
Oliveira? O Tavares? O Lus Bento? Nenhum desses, descansa. Nem lhe sei o nome.
No  conhecido nosso. Vi-o apenas duas vezes, a primeira h oito dias, a segunda
ontem. Verdadeiramente o amor descobriu-se ontem. Que belo rapaz. Se o visses
ficavas a morrer por ele. Quisera fazer-te a pintura, mas no sei.  um belo
rapaz, de olhos pretos, moreno, cabelos abundantes e da cor dos olhos; um par
de bigodes grossos e pretos.

Tem passado aqui por nossa rua, s
tardes, entre as cinco e seis horas. Passa sempre a cavalo. Olha, Teresa, at o
cavalo me parece adorvel; cuido s vezes que est ensinado, porque ao passar
em frente s nossas janelas, comea a saltar, como que me cumprimenta e
agradece a simpatia que o dono me inspira.

Que tolices estou eu dizendo! Mas
desculpa, minha Teresa, isto  amor. No amor sente-se muita coisa que no se
sente de ordinrio. Agora sei.

Vais perguntar-me se ele gosta de
mim, se repara em mim? Repara posso afirmar-te; mas se gosta no sei. Porm 
acaso possvel que se repare muito em algum sem gostar? A mim parece que no.
Talvez seja iluso do meu corao e dos meus desejos.

No sabes como isto me tem posto a
cabea tonta. Ontem mame reparou e me perguntou que tinha eu; respondi que
nada, mas de modo tal que ela sacudiu a cabea e disse baixinho: Ah! amores,
talvez!

Estive para abra-la, mas recuei
e entrei para o quarto. Tenho medo que se saiba disto; entretanto, no creio
que seja crime gostar de um moo bonito e bem educado, como ele parece ser. Que
dizes tu?

Preciso dos teus conselhos. Tu s
franca e s minha amiga verdadeira. Tuas palavras me serviro de muito. Se eu
no tivesse uma amiga como tu, abafava com semelhante coisa.

Escreve-me, quero palavras tuas.
Se quiseres o portador esperar; em todo o caso desejo que me respondas hoje.

Adeus, Teresa; at amanh, porque
eu e mame l vamos. Escreve-me e s sempre amiga da tua amiga, Jlia.

III

Teresa a Jlia:

Minha Jlia.  Apaixonada! Que me
dizes tu? Pois  possvel que achasses afinal o noivo do teu corao? E assim,
sem mais nem menos, como uma chuva de vero, caindo no meio de um dia claro e
bonito?

Dou-te do fundo dalma os meus
parabns.

E se os dou no  simplesmente
porque eu deseje a tua felicidade,  porque igualmente devo receber parabns de
tua parte. Sabes por que motivo?  porque tambm amo! Tambm, sim... Anchio
sono pittore! como diz o mano Gabriel.

V como a sorte protege nossos
coraes. Seria para doer que s uma de ns se apaixonasse e deixasse a outra
no inteiro abandono. Mas no; Deus nos uniu e no quer que caminhemos
isoladamente. D-nos as mos a ambas e quer que sigamos de brao dado pela
alameda do amor. Pois caminhemos, minha querida. Irs com o teu namorado e eu
irei com o meu.

Ah! o meu  um belo rapaz,  a
mesma figura que pintas na tua carta. Se lhe soubesse o nome mandava dizer-te
aqui; mas no sei, porque mal o tenho visto passar s tardes a cavalo. Tambm a
cavalo, como o teu; que felicidade! Belos cabelos e belos olhos. Que olhos,
minha Jlia! Mais bonitos que os meus, posso jurar. Nunca vi olhos assim.
Parecem mgicos; no sei por qu, mas no posso fit-los.

J o vi cinco vezes. A segunda
estava to embebido para mim que foi quase esbarrar contra um carro.

Fiquei to vexada! As Avelares,
que moram defronte, puseram-se a falar entre si. Parece que descobriram. A mim
no me importa que se riam ou no.  de inveja, porque eu duvido que haja um
rapaz de gosto que as namore, to feias so. A mais velha parece uma lagosta; a
mais moa tem cara de periquito; a do meio  periquito e lagosta ao mesmo
tempo. Mano Gabriel chama aquela gente  a famlia impossvel. E olha que .

Mas aqui vou eu j longe do meu
namorado e dos nossos amores, que vo par a par. , como te disse, uma
verdadeira proteo da sorte. Aceitamo-la, minha Jlia; amemos juntas, sejamos
felizes  mesma hora, para que  mesma hora nos transfira para o cu.

Nada de idias tristes.

C fico, minha querida Jlia, 
tua espera.  Tua Teresa.

IV

Jlia a Teresa:

At logo. Escrevi
este bilhete s para dizer-te que ele passou aqui ontem  tarde. Estou cada vez
mais apaixonada. Adeus.  Jlia.

V

 noite do dia aprazado
reuniram-se as duas amigas em Catumbi. Pelas cartas que a ficam escritas
imaginem os leitores do tom em que foi a conversa. A ss, no gabinete de
Teresa, puderam aquelas almas abrir-se e confiar uma  outra todos os segredos
e todas as esperanas. Talvez chegassem a chorar; lgrimas naquela idade so
como a chuva da primavera. Caem para deixar o cu mais belo e a terra mais
jubilosa.

Dizia Teresa:

 Tu no sabes, minha Jlia, como
aquele moo me deixou o corao. No penso seno nele. J sonhei com ele duas
vezes. A primeira foi um sonho de felicidade; a segunda foi um sonho terrvel.

 Ah!

 Sonhei que o vi, no mesmo
cavalo, rolar por um despenhadeiro abaixo. Dei um grito e acordei. Que sonho,
meu Deus!

 Felizmente era sonho.

  verdade.

 Mas ainda no me contaste o
primeiro sonho.

 O primeiro...

 Nada de vergonha; o primeiro foi
um sonho de felicidade, no? Pois conta. No sou eu tambm confidente de
felicidades?

 Sonhei que estvamos em vsperas
de casar. Ele, a ss comigo, no jardim do tio Mateus, jurava aos meus ps, pela
centsima vez, que eu seria o ltimo pensamento de sua vida. Acreditars que
chorei mesmo no sonho, e que quando acordei tinha os olhos midos?

 Acredito, sim.

 Foi este o primeiro sonho. E tu?
No tens sonhado? Conta-me tudo.

 No tenho sonhado, no; mas
posso dizer que vivo em perptuo sonho. Trago presente na memria a figura
dele, de noite e de dia.  o mesmo ou talvez melhor que sonhar.

 Tambm eu! disse Teresa
suspirando.

Jlia continuou:

 Olha, se eu fosse to feliz que
me casasse com ele, e se tu tambm te casasses com o teu, havamos de morar
juntas. Que vida feliz, hein?

 Oh! no fales!

 O amor de um lado e a amizade do
outro. Que felicidade.

Bateram  porta do gabinete.

Teresa perguntou quem era.

 Sou eu, respondeu uma voz
masculina.

  o mano Gabriel, disse ela
voltando-se para Jlia.

E foi abrir a porta.

Gabriel apareceu  porta. Era um
rapaz simptico, muito parecido com a irm. Tinha um ar de franqueza e de
galhofa, sem excluir a delicadeza das maneiras, que o fazia querido das moas.

 Conversavam? Queria saber em qu. Imagino que no era sobre as sandlias de S. Francisco de Paula.

 Cala a boca, herege! disse
Teresa.

  heresia, sei, no precisa pr
mais na carta. Ento sobre que conversavam as meninas?

 Quer saber? disse Jlia. Sobre
os indiscretos.

 Passam em revista a humanidade.
Pois eu aposto que no era sobre os indiscretos que falavam. Era talvez sobre
amores.

 Apre l, mano!

 Isso que tem entre moas?... A
senhora minha irm anda agora de namoro, sabe, D. Jlia?

As duas moas trocaram um olhar.
Teriam sido ouvidas? Gabriel olhava para a irm com ar de quem tinha prazer em
ver aquela confuso. Teresa, depois de um minuto de silncio, aventurou estas
palavras:

 Quem lhe meteu estas coisas na
cabea?

 Ah! eu adivinho.

 Pois enganou-se na adivinhao;
mas se fosse verdade?...

 Se fosse verdade era uma coisa
muito natural, e por isso no sei por que motivo no havia eu de saber as
coisas do teu corao.

 Deus me livre!

 Ora essa! disse Gabriel
sentando-se num pufe, por que no havia eu de saber? Eu compreendo que D. Jlia
no me conte os seus amores. Mas tu...

 Meus amores? disse Jlia.

 Sim, senhora, sim, os seus
amores. Aposto que tambm no os tem?

 Nada tenho,  verdade.

 Nada, a mim  que no engana;
sei que os tem, no s a senhora, como Teresa; e eu, na qualidade de irmo de
uma e criado de outra, hei de saber de tudo...  a minha resoluo.

 Tu ouvistes? perguntou Teresa a
Gabriel.

 Tudo.

 Ah! que curioso! exclamaram as
duas.

Gabriel ria-se para ambas e
divertia-se interiormente com o embarao em que ambas ficaram. As duas, no
podendo suportar o olhar do moo, caram nos braos uma da outra.

VI

Poucos dias depois um baile reunia
as duas famlias. Era um baile de anos da filha do Comendador ***.

Pouco importa saber  nossa
histria quem eram os convidados, nem qual era a toilette das senhoras,
nem quais as mais belas, nem as mais adorveis e adoradas.

Basta-nos saber que as duas
heronas deste conto primavam de graa e de gosto. Nisto a natureza e a arte as
fizeram igualmente irms. Os leitores nos dispensam sem dvida a descrio
minuciosa do traje de cada uma delas.

Mesmo nos bailes poucas vezes se
separavam Jlia e Teresa; em caso de fora maior, resignavam-se, mas era para
voltar logo a reunir-se.

Gabriel achava-se presente a esse
baile.

s dez horas da noite apareceu nos
sales um cavalheiro que, por sua galharda presena e beleza original, comeava
a adquirir certa reputao. Era um filho de Campos; muito jovem fora  Europa,
de onde voltara havia poucos dias.

Antes que o moo convidado
chegasse  saleta onde se achavam as duas heronas, l lhes chegara a fama. Uma
natural curiosidade falou em ambas as criaturas. V-lo, foi um pensamento que
assaltou a um tempo o esprito de Jlia e Teresa; mas ambas julgaram que deviam
ir ao toilette ver mais duas amigas que l as esperavam no fundo do
vidro de um espelho, muito parecidas com elas, e talvez mais amigas ainda de
cada uma delas, do que elas o eram entre si.

Foram.

Uma mulher tem sempre uma fita a
prender, um fio de cabelo a arranjar, quando se trata de ver um homem pela
primeira vez, ou mesmo pela segunda, ou mesmo pela centsima vez.


por assim dizer as armas que elas dispem para entrar no duelo da casquilhice,
duelo onde no h necessidade de cartel nem de testemunhas.

Arranjada a fita ou o cabelo, ou,
como talvez acontecesse, porque neste ponto a tradio  obscura, feita
unicamente uma simples e rpida inspeo, dispunham-se as duas amigas a voltar
ao salo.

Jlia ia adiante; com uma das mos
afastou o reposteiro para sair; mas Teresa, do outro lado, fez o mesmo, e ambas
puseram o p fora da porta ao mesmo tempo, quando por um rpido movimento
tornaram a entrar.

Olharam-se.

 L est ele! disseram ambas.

 Ele quem? perguntou Teresa.

 O meu namorado, respondeu Jlia.
E o teu tambm est?

 Tambm.

Fora, com efeito, passeavam alguns
cavalheiros.

As duas amigas colaram o olho a
uma fresta do reposteiro e comearam a indicar uma  outra quem era o dono do
corao.

Momentos depois desta investigao
feita em voz baixa, e com a respirao compressa, olharam-se com espanto:

  o mesmo!

Esta exclamao partiu de ambas.

Em tais ocasies h sempre um
momento de silncio, ainda quando se trata de coraes to intimamente ligados
como eram aqueles dois.

Com efeito, o acaso, autor de
muitos lances imprevistos, preparara s duas amigas aquela circunstncia
engenhosa de ambas se apaixonarem pelo mesmo indivduo. Era naturalmente o que
lhes poderia acontecer de pior.

O silncio que houve entre as duas
amigas deu lugar a que muitas reflexes fizessem ambas sobre to extraordinria
situao. Mas prolong-lo era piorar as coisas. Foi Teresa quem falou em
primeiro lugar.

 Na verdade,  preciso que a
sorte nos reserve como eterno exemplo de confraternidade para que nos acontea
to singular encontro.

  verdade, disse Jlia.

 Era o primeiro, e por desgraa 
o mesmo.

 Dizes bem, por desgraa,
porque... tu o amas, no?

 Muito. E tu?

 Tanto como tu.  uma desgraa.

As duas amigas foram sentar-se
tristes. Creio at que uma lgrima rolou-lhes pela face, como se j de antemo
estivessem a chorar o bem que iam perder mediante um ato de suspiro.

Estiveram assim durante algum
tempo.

Depois Teresa levantou-se e foi a
Jlia.

 Minha querida, somos irms pelo
corao; se o teu amor  forte, se dele depende a tua vida, seja a conquista
unicamente tua. Consola o teu corao e no te importes comigo.

 Isso no, respondeu Jlia
levantando-se. Em nome do que devo eu consentir esse sacrifcio? No chorar
para ver-te chorar, Teresa, prefiro morrer!

Tamanho interesse duvido eu que
algum tenha visto, sobretudo com o ar de convico sincera daquele; era um
espetculo que eu sinto ter sido apenas observado pelos espelhos do toilette
e pela pena do romancista que penetra at no ntimo do pensamento.

Todavia, se aquela luta da recusa
do namorado em questo se prolongasse mais algum tempo, corria o risco de ser
montona. Parece que ambas compreenderam isto, porque trataram de pr termo a
ela.

Ocorreu, porm, a ambas uma idia
que at ali no tinha aparecido. Foi Teresa quem primeiro a enunciou.

 Mas, dize-me c, se ele nos
iludir a ambas? No disseste que ele parecia corresponder-te?

 Correspondia.

 Tambm a mim.

 Enganava a ambas.

 Enganava. Isto  importante. Ns
nos doamos de amor por ele, sem sabermos que ambas fazamos convergir o nosso
esprito para um mesmo ponto, e ele, contente por contar com o corao de
ambas, de ambas se ria entre si.

 Parece que  verdade isso.

 , sem dvida.

Juntou-se ao desgosto da situao
um gro de despeito. Era o sal que faltava. Devo mesmo dizer que se no
houvesse aquele despeito to natural, o corao das duas moas sofreria
dobradamente. At ento apenas tinham a idealidade de uma m fortuna contra
quem exalar os seus suspiros e clamores; agora tinham diante de si um ente
vivo, humano, a causa da situao aflitiva a que eram levadas.

Assim que, uma vez concordes em
que o moo zombava delas, as duas moas ficaram igualmente acordes num ponto:
era que ele no devia entrar nas suas preocupaes, posto que to indigno se mostrara.

Mas quem pode responder pelo
corao? Era ainda o corao quem as animava contra o jovem namorado comum.
Enganavam-se, talvez; venceria o amor ou a amizade?  o que as leitoras vo
saber se tiverem a pacincia de passar aos captulos seguintes.

VII

No perteno ao nmero dos
narradores que atribuem aos leitores uma cegueira completa para a averiguao
de certos pontos das suas narrativas. Fica entendido que o leitor sabe j que o
namorado de Jlia e Teresa, e o rapaz entrado s 10 horas na casa do Comendador
***, causando tanto abalo aos convidados, eram uma e a mesma pessoa.

Isto posto, direi mais duas
palavras sobre o misterioso namorado. J disse que chegara da Europa e que era
um guapo rapaz. Acrescentarei que se chama Daniel. Tem 25 anos de idade.
Profisso: duzentos contos em ttulos da dvida pblica e prdios inscritos nas
companhias de seguro contra o fogo. Era gastador, mas gastava com certa conta;
isto por experincia, visto que os duzentos contos eram j os restos de uma
fortuna de oitocentos que lhe deixara o pai.

Tal  em traos largos o namorado
das duas raparigas, que seria de quantas quisesse, to prprio a inspirar
amores era ele.

Jlia e Teresa tinham sado para o
salo.

No viram Daniel.

Mas, na ocasio em que se
anunciava uma quadrilha, viram aproximar-se do lugar em que elas estavam Daniel
e Gabriel: Daniel era mope; quando ps a luneta e conheceu as duas raparigas
fez um gesto de surpresa. No convinha, porm, mostrar-se conhecido de nada, e
para logo se acalmou. Gabriel conduziu-o, apresentou-o s duas amigas, e disse
para sua irm que danasse com ele.

 Tenho par, murmurou Teresa.

 Tens,  verdade, disse Gabriel,
mas o teu par sou eu. Ora, eu cedo em favor de Daniel.

No era possvel recuar. Todavia,
Teresa no quis decidir-se sem consultar Jlia com o olhar.

Jlia levantou simplesmente os
ombros; Teresa adivinhou o movimento e tomou o brao de Daniel.

Gabriel voltou-se para Jlia e
disse:

 Se no tem par, D. Jlia. O meu vis--vis
 Daniel.

 No tenho, respondeu a moa.

Nesse momento soara o sinal da
quadrilha. Jlia levantou-se e aceitou o brao do irmo de Teresa. Iam tomar
lugar em frente de Teresa e Daniel, quando um cavalheiro se apresentou
reclamando uma quadrilha de Jlia, a qual dizia ser aquela.

 Eu me enganei; o meu par era
este cavalheiro.

O moo no insistiu.

Jlia corou. Tinha faltado 
verdade e acabava de cometer uma imprudncia; mas apenas se achou diante do par
Teresa e Daniel, a moa esqueceu tudo, e cravou na amiga um olhar inteligente e
indagador.

Entretanto a quadrilha comeou e
seguiu o seu curso. Daniel conversava muito com Teresa; esta respondia-lhe por
monosslabos; mas de certo ponto em diante parecia interessar-se menos que ao
princpio.

Qual seria o motivo da conversa?

Era esta a pergunta que Jlia
fazia consigo. Mas no podendo saber logo, ardia por ver a quadrilha acabada. A
quadrilha acabou; apenas se achou a ss com Teresa perguntou-lhe curiosa qual o
objeto do dilogo que tivera com Daniel; Teresa respondeu que ele fizera correr
a conversa sobre banalidades, que era um homem aborrecido e comum.

Isto tranqilizou a outra.

Danou-se
ainda algumas quadrilhas. Era j uma hora da noite. A famlia de Teresa, a
instncias desta, adiara a sada.

Gabriel apareceu de repente a
Jlia levando pelo brao o seu amigo Daniel.

 O meu amigo Daniel  o melhor
valsista da sala, incluindo-me eu prprio, disse ele a Jlia.

E, voltando-se para Daniel,
continuou:

 D. Jlia  a melhor valsista
desta sala, incluindo minha mana.

Seguiu-se uma valsa entre Daniel e
Jlia: era natural.

A valsa foi realmente digna dos
elogios que dos dois valsistas fizera Gabriel.

Quando pararam Jlia estava
extenuada. De fadiga ou comoo? Talvez de uma e outra coisa. O que  certo 
que Daniel tanto valsava como falava ao ouvido de Jlia, palavras brandas,
rpidas e incisivas.

Ora, no fim da noite eis em resumo
o que Daniel havia dito a Jlia e a Teresa.

A Teresa:

 Amo-a muito;  a nica que trago
em meu pensamento. Um capricho levou-me a querer brincar com a sua amiga; mas
eu no tenho nem quero ter outro amor que no seja este.  a minha alma,  a
minha vida,  o meu futuro,  o meu cu. Ame-me, ame-me!

A Jlia:

 Amo-a muito;  a nica que trago
no meu pensamento. Um capricho levou-me a querer brincar com a sua amiga; mas
eu no tenho, nem quero ter outro amor que no seja este.  a minha alma,  a
minha vida;  o meu futuro,  o meu cu! Ame-me, ame-me!

VIII

Passaram-se alguns dias depois do
baile.

Nenhum acontecimento importante
mudou a ordem antiga das coisas; as duas amigas comunicaram-se com freqncia;
as cartas iam e vinham com presteza, e a afeio fraternal parecia no ter
sofrido em coisa alguma.

Uma s coisa se notava na
correspondncia de Jlia e de Teresa; era um silncio obstinado a respeito de
Daniel. Esse silncio, depois dos acontecimentos e do dilogo dos dois no
baile, era natural; mas acaso a declarao de Daniel influiria no nimo?

Vamos ver o que foi.

IX

Daniel continuava a passar todas
as tardes como anteriormente em Catumbi e nos Cajueiros.  hora do costume j
as duas moas se achavam  janela.

Como explicar o procedimento de
Daniel? Amaria ambas? Impossvel. Enganaria ambas ou uma s?

O amor, para Daniel, era
simplesmente um objeto de distrao; ele no amava, nem a Jlia, nem a Teresa;
divertia-se com ambas, por mero passatempo.

Em to m hora o fez, ou antes com
toda a perfdia, que as duas boas moas declararam-se apaixonadas por ele.

E esta paixo foi a nuvem que
cobriu o cu de amizade, at ento puro e radiante.

Os dias correram do modo por que
os leitores adivinham. O silncio recproco a respeito de Daniel deu a entender
a Jlia e a Teresa que eram rivais uma da outra.

Isto devia naturalmente trazer uma
explicao. Foi o que aconteceu; as duas, um dia que se achavam juntas, levaram
naturalmente a conversa para o objeto comum.

Ambas declararam que amavam Daniel
e comunicaram a esperana que este lhes dava. Como da primeira vez, chegaram ao
conhecimento de que ambas eram enganadas. As cartas que ambas recebiam de
Daniel foram igualmente comunicadas. A nova traio do rapaz foi descoberta.

No meio, porm, destas rivalidades
e das nuvens que comeavam a ensombrar o quadro da afeio fraternal de Jlia e
de Teresa, o corao foi readquirindo os seus direitos e pde contrabalanar o
amor.

O que  certo  que um ms depois
Jlia e Teresa recebiam uma da outra uma carta de desistncia.

Eis a carta de Teresa a Jlia:

Minha querida Jlia.  Sei quanto
sofres, sei como amas Daniel. Compreendo esse amor por ele, visto que o tenho
igualmente. Mas eu posso sofrer os golpes da fatalidade e reerguer-me s e
salva. Duvido que o possas tu. Sente-se que a tua vida depende desse amor.

Assim, pois, vou fazer o que meu
corao me dita.  um dever de amizade leal, como convm a quem est sincera em
tudo isto.

Amo Daniel,  verdade, mas entre o
meu e o teu sacrifcio, prefiro o meu. Sufocarei a minha paixo. Ama-o tu
sozinha e s feliz.

Procedendo assim, estou longe de
crer que merea louvores ou agradecimentos; fao o dever. Salvar uma amiga de
uma dor grave  um dever de amizade. Se a amizade no servisse para estas
grandes ocasies seria uma coisa fcil.

Quando o cu nos fez to iguais, e
o mesmo sentimento nos ligou, foi para que nos mostrssemos assim. Se hoje fao
isto, amanh fars outra coisa por mim, e teremos ambas merecido o nome de
verdadeiramente amigas.

Sossega, pois, o teu corao;
alimenta as tuas esperanas. Ama Daniel. S feliz e cr-me tua amiga,  Teresa.

Quando Jlia lia esta carta de
Teresa, Teresa lia a seguinte carta de Jlia:

Minha
Teresa.  Daniel  um tanto bandoleiro; mas ele pode ser firme e fiel, se um
corao verdadeiramente apaixonado o contiver. Qualquer de ns lhe daria esse
corao, mas de ns ambas s tu pareces mais fraca, mais exclusivamente
apaixonada. Eu o estou bastante, mas agradeo restar-me um pouco de razo para
ver que devo fazer um sacrifcio em teu favor.

A que chegaramos se eu insistisse
em conservar o amor de Daniel? A uma luta estril, sem resultado, a no ser o
de perdermos ambas a tranqilidade do corao e a felicidade da nossa vida. Que
isso me sucedesse a mim, pouco me importaria, mas tu  que no deves sofrer, e
eu lastimaria do fundo dalma to funesto resultado.

O que te digo, pois,  que o ames
s e procures ganhar exclusivamente toda a afeio de Daniel. Ele pode fazer-te
feliz, e pela minha parte vou pedir a Deus que coroe os teus votos.

No te importes comigo; sou mais
forte do que tu; posso lutar e vencer. Por que no? Quando me faltasse coragem,
bastaria a idia de que cumpria um dever de irm para ganhar foras. No ser
uma luta estril, a luta do meu corao contra o amor. Mas vena o dever, e tanto
basta para fazer-me contente.

Ama-o e s feliz. Do corao to
deseja a tua,  Jlia.

X

Estas duas cartas, chegando ao
mesmo tempo e dizendo a mesma coisa, produziram idnticos efeitos.

Ambas viram que de parte a parte
havia um sacrifcio de amizade. Mas ambas persistiram no que haviam entendido,
sem querer aproveitar o sacrifcio da outra.

Novas cartas e novas recusas da
parte de ambas.

E, para realizar o sacrifcio
oferecido, ambas deram de tbua ao gamenho Daniel.

A primeira vez que se encontraram
caram nos braos uma da outra, quase lavadas em lgrimas.

 Obrigada, minha amiga! O teu
sacrifcio  grande, mas em vo; no posso aceit-lo.

 Nem eu o teu.

 Por que no?

 Por que no?

 Aceita.

 Aceita tu.

E deste modo cada uma delas
tratava de ver quem seria a mais generosa que a outra.

Respondendo desta maneira, atirado
de uma para outra, recusado por sentimento de magnanimidade, Daniel foi quem
perdeu no tal joguinho. De onde se prova o provrbio que  sempre mau correr a
duas lebres.

Mas falta  nossa histria o
eplogo e a moralidade.

***

Quinze dias depois das cenas que
se acabam de narrar, Teresa escreveu a Jlia as seguintes linhas:

Minha Jlia.  Sei que s minha
amiga e partilhars a minha felicidade. Vou ser feliz.

A felicidade para
ns outras reduz-se a muito pouco: encher o nosso corao e satisfazer a nossa
fantasia.

Vou casar. Acabo de ser pedida. O
meu noivo possui o meu corao, e posso diz-lo, sem vaidade para mim, eu
possuo o dele.

Perguntars quem ele .  natural.
No te lembras do Alfredo Soares? Pois  ele. Vi-o tantas vezes a frio; no sei
por que comecei a am-lo. Hoje se ele no me pedisse, creio que eu morreria. O
amor  isto, Jlia:  problema que s a morte ou o casamento resolve.

Adeus, abenoa o futuro de tua
amiga,  Teresa.

Jlia leu esta carta e respondeu
as seguintes linhas:

Minha Teresa.  Estimo do fundo
dalma a tua felicidade e fao votos para que sejas completamente feliz. O teu
noivo merece-te;  um belo mancebo, bem educado e de boa posio.

Mas no quero que te entristeas.
O cu nos fez amigas e irms, no podia dar-nos a felicidade por meio. Tambm
me deparou alguma coisa; e, se no estou pedida, vou s-lo esta tarde.

No conheces o meu noivo; chama-se
Carlos da Silveira, tem 25 anos, e  um corao de pomba. Ama-me como eu amo a
ele.

Meu pai no se poder opor a este
casamento. O que resta  que ele seja feito no mesmo dia, para que, fazendo em
igual hora a nossa ventura, ratifiquemos a sorte propcia e idntica que o cu
nos deparou.

Agradeamos a Deus tanta
felicidade. At amanh  noite. Tua,  Jlia.

XI

No dia seguinte reuniram-se todos,
no em casa de Teresa, mas em casa de Jlia, nos Cajueiros. Estavam as duas e
os dois noivos. Gabriel acompanhara a famlia  visita.

As duas moas comunicaram os seus
projetos de felicidade. Nenhuma delas censurou  outra o silncio que guardara
at a hora do pedido em casamento, porque ambas tinham praticado a mesma coisa.

Ora, Gabriel, que soubera por sua
irm Teresa da recusa de ambas relativamente a Daniel, aproveitou uma ocasio
que as acompanhou  janela e disse-lhes:

 No h nada como a amizade.
Admiro cada vez mais o ato de generosidade que ambas praticaram a respeito de
Daniel.

 Ah! sabe! disse Jlia.

 Sei.

 Fui eu quem lho disse,
acrescentou Teresa.

 Mas, continuou Gabriel, so to
felizes que o cu lhes deparou logo um corao para responder aos seus.

  verdade, disseram as duas.

Gabriel olhou para ambas, e
depois,  meia voz, com inteno disse:

 Com a singularidade de que a
carta de desistncia do corao do primeiro foi escrita depois do primeiro
olhar amoroso do segundo.

As duas moas coraram e esconderam
o rosto.

Tinham de ficar vexadas.

Caa assim o vu que encobria o
sacrifcio e via-se que ambas haviam praticado o sacrifcio no interesse
pessoal; ou por outra: largavam um pssaro tendo outro em mo.

Mas as duas moas casaram-se e
ficaram to amigas como antes. No sei se no correr dos tempos houve
sacrifcios semelhantes.
